Especialista alerta para os perigos do distúrbio impulsionado pela hiperconectividade e pela busca obsessiva por alta performance O cansaço ...
Especialista alerta para os perigos do distúrbio impulsionado pela hiperconectividade e pela busca obsessiva por alta performance
O cansaço crônico que não cede após o final de semana e a sensação de que as 24 horas do dia não são suficientes tornaram-se sintomas comuns na rotina moderna. O que muitos confundem com mera estafa, no entanto, pode ser o reflexo de um colapso mais profundo. Classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um distúrbio ocupacional (CID-11), a síndrome de burnout ganhou contornos ainda mais complexos com a digitalização do trabalho: o chamado burnout digital.
De acordo com o psicoterapeuta Gabriel Graça, o fenômeno surge quando o organismo humano é forçado a operar no ritmo imediato das máquinas. O especialista destacou o tema durante entrevista para a série Doenças da Era Digital, veiculada pelo canal de Youtube da Prodcumaru Hub Criativo.
Durante o bate papo com a pressão para responder a mensagens instantaneamente e a necessidade de gerenciar o que cientistas chamam de "relações projetadas" exaurem o cérebro. Sem pistas físicas do cotidiano real — como o tom de voz, o olhar ou o tato —, a mente gasta o dobro de energia tentando adivinhar as intenções do outro por trás das telas.
“A cultura contemporânea da alta performance transformou a produtividade constante em uma espécie de fuga emocional, muitas vezes mascarando o esgotamento”, destaca o especialista. “Esse estilo de vida, somado ao consumo frenético de conteúdos rápidos nas redes sociais, vem corroendo a capacidade humana de concentração, tornando raras as leituras e as reflexões profundas”, complementa Graça.
Sinais do corpo
O burnout não é um problema estritamente psicológico; ele cobra um preço físico altíssimo. Sob estresse crônico, o corpo entra em hipercortisolismo (excesso de cortisol no sangue). O resultado imediato desse desequilíbrio inclui insônia, lapsos de memória, hipertensão e uma severa baixa no sistema imunológico. Médicos alertam que, a longo prazo, o risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) aumenta drasticamente devido a essa sobrecarga.
Quando o organismo esgota completamente a sua capacidade de reagir, os níveis desse hormônio despencam, levando ao hipocortisolismo — estágio marcado por uma exaustão profunda e pela perda de perspectiva diante da vida.
“Pessoas com perfil perfeccionista e centralizador encabeçam a lista de vulnerabilidade”, crava o psicoterapeuta. De acordo com Gabriel Graça, o problema também atinge em cheio o ambiente familiar através do burnout materno, onde mães se sobrecarregam na busca por uma criação perfeita, ignorando o conceito psicanalítico de que filhos precisam apenas de pais "suficientemente bons", não impecáveis.
Tratamento e recuperação
Especialistas são categóricos e dizem que uma semana de férias na praia não cura o burnout se o indivíduo retornar para a mesma rotina com a mesma mente. A verdadeira recuperação exige uma mudança estrutural de hábitos através de dois pilares: a desconexão programada e o resgate do lúdico.
O primeiro consiste em estipular horários fixos para checar e-mails e mensagens de texto, quebrando o ciclo de disponibilidade integral de 24 horas por dia.
O segundo foca em praticar atividades sem qualquer finalidade produtiva ou de performance — como trabalhos manuais, quebra-cabeças, esportes por lazer ou leitura de literatura.
“Estabelecer uma fronteira clara entre as demandas da máquina e as necessidades do corpo humano deixou de ser uma meta de bem-estar para se tornar uma questão de sobrevivência clínica”, finaliza o Gabriel Graça.



